Novas noites em Manhattan - Manual para o sonho americano
- Consultorías Stanley
- 28 de dez. de 2025
- 4 min de leitura

O chamado Sonho Americano tem sido, durante décadas, uma promessa móvel: uma ideia que viaja mais rápido do que as pessoas e chega antes delas às cidades que irão habitar. Mito persistente e consigna eficaz, ele sobrevive como expectativa concreta de trabalho, segurança, reconhecimento e futuro. Novas Tardes em Manhattan se aproxima desse sonho observando-o em funcionamento, na vida cotidiana daqueles que o perseguem com disciplina, fé, astúcia e cansaço. Por isso, este livro pode ser lido como um manual realista: descreve caminhos interiores, expõe experiências passadas difíceis e não promete resultados; em vez disso, revela custos — os da desilusão e também os da ilusão — aceitando, como formulou Menandro, que não vivemos como queremos, mas como podemos. Trata-se de um livro que compartilha experiências com a agudeza própria dos grandes romancistas.
Um manual realista para quem viaja em busca do Sonho Americano
Nas páginas que seguem, o leitor entra em uma geografia humana onde memória e porvir, identidade e desenraizamento, fé e sobrevivência cotidiana se encontram. O romance se constrói como narrativa coral e como testemunho íntimo: um mapa daqueles que chegam a uma cidade deslumbrante com a vontade de refazer a própria vida e descobrem, ao mesmo tempo, trabalhos árduos, alianças frágeis, afetos intensos e decisões que definem um destino.
A obra se articula a partir de um centro simbólico que orienta toda a sua respiração narrativa: o sonho recorrente do autor no qual Manhattan é sacudida por uma grande explosão. Essa visão — vivida como presságio insistente — revelou-se uma intuição histórica e espiritual. Desde sua escrita, o romance perdura por captar as tensões invisíveis que atravessam a relação de poder entre o cidadão legal e o ilegal, origem de desigualdades acumuladas e de vidas que sustentam a cidade a partir da sombra: sem crédito, invisíveis, disciplinadas. Nesse horizonte, a escrita se torna uma forma de atenção lúcida: prestar atenção ao que a metrópole não enuncia, ao que o imigrante aprende a silenciar para perseverar, ao que o corpo compreende quando a língua, a lei e o costume transformam a existência em um exame permanente.
A partir daí se desenvolve o percurso de Claudia Angelina de las Peñas, cuja travessia é física, emocional e espiritual. Claudia chega a Nova York determinada a interromper um passado que a persegue e se depara com uma realidade complexa: a promessa de prosperidade convive com a intemperança afetiva; a liberdade com a disciplina; a abundância visível com a economia mínima do cotidiano. Seu olhar permite percorrer Manhattan e suas margens não como cartão-postal, mas como experiência vivida: jornadas longas, silêncios compartilhados, vínculos que se tensionam e se reorganizam.
Ao seu lado surge Mario, marcado por um passado político turbulento e por uma dupla identidade que intensifica sua fragilidade. Seu trânsito pelo metrô — jogral urbano, trabalhador invisível, consciência em conflito — abre um dos eixos mais profundos do livro: a elaboração de sentido quando fé, culpa e necessidade dialogam. Mario encarna a possibilidade de redenção entendida como trabalho interior e como responsabilidade; seu impulso de escrever e pensar não evita a dureza do presente, mas a atravessa.
Todd introduz outra dimensão decisiva do Sonho Americano: a relação entre ideias e vida, entre contrato social e afeto. Professor de filosofia, marcado por uma limitação física e por uma lucidez incisiva, Todd se move entre o acordo prático e o envolvimento emocional. Sua relação com Claudia ilumina uma constante do romance: a negociação entre o que se deseja e o que se aceita para sobreviver, entre o amor e as formas legais que prometem proteção.
Ao redor deles, uma galeria de personagens — Helena, Clitemnestra, Cassandro, Orlando, Eduardo, Constantino — confere densidade e textura à narrativa. Helena traz o fio ideológico de uma época: o da especialista paternalista que, a partir de sua posição em uma ONG, determina o que pode ou não ser dito e feito, reduzindo os imigrantes a peças funcionais de uma engrenagem moral. Clitemnestra encarna a energia contraditória da cidade; Cassandro introduz a música como memória e destino. Cada figura amplia a perspectiva sobre a experiência migratória.
A prosa que acompanha esses personagens sustenta um equilíbrio raro: realismo urbano e ressonância poética; observação social e dimensão simbólica; crônica da cidade e meditação interior. O romance avança por bairros, trabalhos, documentos e afetos e, ao mesmo tempo, reflete sobre a fragilidade humana, a tentação, a fé e a maneira como uma cidade redefine aquilo que acreditamos merecer. Essa combinação transforma o livro em experiência estética e em conhecimento compartilhado.
Há aqui uma vocação comparativa que articula territórios e culturas: Bucaramanga como raiz e memória ativa; Porto e Lisboa como estações de aprendizado; Filadélfia, Manchester e Besançon como marcas de um percurso interior. Nessa linha ressoa o ensinamento de Baldomero Sanín Cano, para quem o escritor deveria ser também viajante, atento aos vínculos entre sociedades e linguagens, capaz de transformar o deslocamento em compreensão e solidariedade. Novas Tardes em Manhattan participa dessa tradição: observa, compara, registra e acompanha.
O romance foi impresso na Colômbia pela Universidad Industrial de Santander no ano 2000 e, posteriormente, na Espanha, pela editora La Buganville, após os acontecimentos de 11 de setembro. Diversas das reflexões aqui expressas foram enviadas ao autor em uma carta de Katty Paternina, personagem de seu documentário Manatí, retábulos de um povo subdesenvolvido e feliz (2005).
Como ela, também espero novos e belos livros do autor:
Não deixes que as tardes declinem.
Muitos de nós ainda sabemos apreciar o pôr do sol,
e há muitas tardes que ainda podem nos surpreender.
Leyla Margarita Tobías BuelvasSincelejo, dezembro de 2025





















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